Até onde vai a loucura e a malvadez?

Até onde vai a loucura e a malvadez?

Enquanto é mais ou menos plausível que se possa prever a maioria dos cenários para uma saída com bom senso, dado um determinado problema, o facto é que é o naipe de possibilidades para uma saída destituída de bom senso, é de tal forma vasto que é impossível prever todas.

Vem isto a propósito de uma notícia de hoje que reza que o corpo de Salvador Dali foi exumado porque alguém com mais de 60 anos (!) se lembrou que é filha dele.

Nessa notícia, que vinha na revista Sábado (edição em papel), acrescentava-se no fim do texto que o artista não era de forma nenhuma o único que não teria descansado em paz após a sua morte.

E listava o nome de algumas outras celebridades que teriam sido desenterradas, por um ou outro motivo, e referia que também igreja católica na Idade Média desenterrava aqueles que tinham escapado à fogueira para lhe queimar os ossos, quando descobria onde eles estavam enterrados.

Se isto não é surpreendente, não sei o que será. Dou aqui os meus parabéns à igreja pois eles são os verdadeiros príncipes da política; instituíram um reino de terror inimaginável durante séculos e hoje são seguidos e adorados por centenas de milhões.

Como refere Pacheco Pereira, “em Roma estão os homens mais inteligentes à face da terra”; ao pé deles todos os outros políticos são (ou foram) uns passarinhos.

Hitler, Staline, Mao e tantos outros, ficaram com a careca à mostra; mas a igreja católica que, repito, durante séculos, praticou inenarráveis actos de terrorismo e atentados aos direitos humanos, continua aí hoje alegre e descontraída, anunciando o amor ao próximo e assobiando para cima, como se nada se tivesse passado com ela.

E, das elites ao mais humilde camponês, ninguém abre a boca, ninguém pede explicações, ninguém se indigna.

A inquisição, as fogueiras, as torturas, o esclavagismo, tudo isso parece ter-se desvanecido no ar. Não ter existido.

Há alguma coisa que me escapa nisto de ser herdeiro de um reino de terror e conseguir limpar a imagem, “limpinho, limpinho”, como diria um conhecido filósofo português contemporâneo. Isto sim é um mistério, um verdadeiro milagre.

luís lemos

(foto cortesia: start-cohen.blogspot.pt)