João César das Neves e a Selva Legislativa

Em João César das Neves admiro a facilidade com que expõe as ideias e a forma como defende o que pensa. Não comungo do seu ideal político ou religioso, mas gosto ler os seu textos (e já comprei livros que escreveu).

Nem sempre o entendo. Há muitos, muitos anos, César das Neves escreveu um violento artigo contra os sete dígitos no código postal (em vez dos quatro). Não sei o que lhe terá passado pela cabeça na altura, pois não creio que ninguém conteste  a utilidade e eficiência do sistema.

E vaticinou que o país iria ao fundo em 2017, quando pela primeira vez na última década o crescimento superou os dois dígitos, o desemprego baixou e as expectativas dos agentes económicos atingiram o máximo.

Esse mau presságio de João César das Neves, foi para mais, impresso em livro. Espero que o destino lhe tenha pregado uma partida, para bem de todos.

Mas gostei de o ver no programa “olhos nos olhos” a reconhecer que a “geringonça” resultou e aceitar os factos sem ressentimentos. Ficou-lhe bem.

E gostei do artigo de hoje no DN com o nome “A selva legislativa“. Eu por acaso acho que é mais uma “fúria legislativa”, uma “exaltação permanente”, o que acomete aos legisladores portugueses.

Os legisladores (leia-se, as sociedade de advogados) fazem lembrar os jornalistas do extinto jornal sensacionalista ’24 horas’ (que andavam sempre excitados); ora era porque a Inês Castel-Branco tinha feito xixi, ora porque a Irina não sei quantos tinha lavado os dentes. Tudo dava um artigo. Colapsou.

Em Portugal, tudo dá uma lei. E o Estado faliu (mais uma vez). Leia o artigo do reputado professor de economia, que se deu ao trabalho de contabilizar as páginas e volumes da legislação já produzida só neste ano.

Para terminar, devo sublinhar aqui, que o autor de opinião de “Não há almoços grátis” é uma pessoa prestável, atenciosa e cordial; uma vez enviei-lhe um mail com uma questão a que me respondeu prontamente.

Se considerarmos que sou um perfeito desconhecido, esse gesto de César das Neves é admirável; não por me ter respondido pessoalmente, mas pelo gesto em si, pelo que ele significa, pelo que diz da pessoa.

Alguém com a projecção pública como a que ele tem, que usou parte do seu tempo a responder a um anónimo, é uma pessoa que tem a minha admiração incondicional.

luís lemos