Paradigma (banda punk rock dos Açores, Ilha Terceira)

Paradigma (pré-Resposta Simples)

Os Paradigma foram a minha primeira banda Punk. Encontrava-me a viver nos Açores (na minha terra natal, a Ilha Terceira) por volta do ano de 2001 e eu e alguns amigos reunimo-nos a fim de “fazer barulho” e criar uma banda, sonho de qualquer adolescente. Após algumas atribulações, mudanças de membros, lá conseguimos reunir uns 5 jovens (4 rapazes 1 rapariga) e começar a criar  “música”. À excepção do Fogy que sabia tocar, nenhum de nós conseguia dominar nenhum instrumento. O Tiago recebeu a sua primeira bateria no seu aniversário (fizemos-lhe uma festa surpresa e a sua prenda foi a bateria), eu nem conseguia pegar numa guitarra daí fui para vocalista, o João Pedro sabia fazer uns acordes e foi para guitarrista ritmíco e a Ana Isabel também “dava uns toques” no baixo.

E assim saíram as primeiras malhas, covers de bandas Punk norte-americanas como NOFX e outras covers de bandas menos conhecidas como Good Clean Fun (USA), Raised Fist (Suécia) e bandas tugas como Mata-Ratos. Criámos algumas originais como “Skate: ontem, hoje e sempre”, “Ignorância”, “Zorgs”, “Espírito de Revolta” e o nosso tema mais conhecido (se assim o podemos dizer), “Aguardente”, “Acordemos!” e “Algures em Janeiro”; e covers como “Knowledge” dos Operation Ivy, “If the kids are united” dos Sham 69 e “You’re only punk once” dos Good Clean Fun”.

Sempre nos divertíamos imenso no meio daquele barulho imenso e aos poucos lá fomos descobrindo melhor como tocar os instrumentos e como criar música. Como é normal acontecer no mundo da música, o interesse de uns é sempre maior do que outros e a Ana Isabel acabou por sair da banda e o João Pedro também, ficando os Paradigma reduzidos a um power-trio. Aprendi entretanto a tocar baixo com a saída da Ana, o Fogy continuou na guitarra e o Tiago na bateria.

O nosso primeiro concerto “a sério” aconteceu no Festival do Posto do Rock (na freguesia do Posto Santo), organizado pelo Artur dos Sacrilegium, onde abrimos nós o concerto, depois tocaram os Sacrilegium e por fim os God Sin. Foi uma boa noite e tivemos muitos amigos nosso presentes. É natural que estivéssemos muito nervosos, mas mesmo assim perante a situação, creio que nos saímos bem.

Este foi o nosso primeiro concerto “oficial” pois na verdade já tínhamos actuado 2 vezes: uma no mítico “Barracão” do Sissinho e outra na esplanada de um bar dos Salgueiros. No Barracão, tivemos acesso ao mundo “dos músicos grandes” (tinhamos na altura cerca de 16/17 anos), onde a maioria do pessoal da única banda punk existente, os Sangue ou Punk, andava e outros músicos conhecidos do meio. O Barracão era o mais possível do underground que podia existir na Ilha Terceira. Era literalmente um barracão, com um bar improvisado e com um pequeno espaço de chão onde as bandas podiam tocar. Na altura, a Ana Isabel era amiga do Sissinho e perguntou se podíamos tocar umas músicas. Ele concordou e passado umas horas subimos “ao palco”. Nem sei bem porquê, mas a Ana acabou por não tocar e o João Pedro também não (era o seu aniversário e não estava no barracão, tendo chegado umas horas depois). Assim, os Paradigma apresentaram-se apenas com 3 membros: eu na voz, o Fogy na guitarra e o Tiago na bateria. Sem baixo e sem guitarra ritmo, tocámos “Sente o Ódio” dos Mata-Ratos, “Aguardente” (um tema original nosso) e creio que mais uma ou outra música. Estávamos todos super envergonhados, mas ao mesmo tempo super felizes de poder mostrar pela primeira vez o nosso trabalho. E ainda por cima à comunidade musical terceirense!

O segundo concerto foi nos Salgueiros. Estávamos durante o verão de 2001 ou 2002 a acampar e num bar perto do nosso campismo tocava uma banda de covers chamada The Wigs, com alguns conhecidos músicos locais. Mais uma vez, a Ana Isabel conhecia esses músicos e perguntou-lhes se não podíamos tocar umas músicas. Não sei bem como, mas  lá aceitaram e no intervalo da sua actuação subimos ao palco e começámos a “partir” tudo. Encontrávamo-nos visivelmente embrigados e até durante a performance, o Tiago caiu do banco da bateria numa música e num outro tema continuou sempre a tocar, apesar da música já ter terminado há algum tempo (ficámos todos a olhar para o rapaz até que se apercebeu disso)… Bons tempos! Resultado final: quem estava ali, estava para ouvir umas covers de rock suave e não estava para aturar uns miúdos punks a berrar e acábamos por ser “expulsos” (de forma simpática) pelos The Wigs, após tocarmos umas 3 músicas.

Uma situação semelhante aconteceu numa outra actuação dos Paradigma, na Feira Agrícola terceirense. Um colega meu do Secundário tinha o seu pai a trabalhar na organização da feira naquele ano e lá me indicou com quem devia falar para tocarmos num dos dias da feira. Acabei por ir falar com os senhores e quando me perguntaram como soava a nossa música (pois não tinhamos nada gravado), disse-lhes que erámos Punk. Como desconheciam de todo o termo, a comparação mais próxima que arranjei, e a única banda que tinham ouvido falar punk, foram os Green Day (som que nada tinha a ver com o nosso género, mas pronto). Concordaram aprontamente e lá estavam os Paradigma enfiados numa outra actuação. No dia do concerto, acabámos por não fazer o teste de som pois estava  a haver um concurso de ovelhas (ou de cabras, nem sei bem!) e não podia haver barulho durante a tarde. Para além disso, ainda nos envolvemos numa discussão com o técnico de som que não nos queria fazer o som pois ninguém lhe tinha informado da nossa actuação. Ironicamente nem recebemos nada pelo concerto e o mesmo técnico queria ainda que nós lhe pagássemos 25€ para fazer-nos o som durante o concerto… Proposta esta que recusámos. Claramente chateado acabou por concordar trabalhar sem que lhe pagássemos. Não sei se foi por estar chateado ou por não termos feito teste de som, mas a verdade é que este estava terrível tanto dentro de palco como fora. Para além disto, rebentou uma corda ao Fogy durante o espectáculo e não tinhamos um acordeamento para substituir. Contudo, lá subiu ao palco um dos músicos dos Trust (uma banda de Pop Rock com que partilhámos o palco) com uma corda extra e continuámos a rockar. Mais uma vez, devido ao nosso som ser muito agressivo, cada música que tocávamos tinhamos menos aplausos dos velhinhos, lavradores e crianças presentes, acabou por vir um membro da organização ao palco pedir que terminássemos com a actuação. Tocámos mais umas músicas e lá nos viemos embora.

Um outro concerto “underground” que realizámos foi em São Pedro na casa de uma amiga nossa. A sua mãe era dona de uma propriedade e ali ninguém vivia. Pintámos a casa toda com graffitis e mensagens de intervenção (“Go Veggie!”, “Nazi Punks Fuck Off”, “A humanidade só será livre quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último burocrata”, entre outras) e passávamos ali grande parte do nosso tempo. Era a nossa “capa okupada”, o mais próximo do espírito Punk que podíamos viver, perante as circunstâncias insulares. Um dia pedimos à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo uma autorização para barulho durante a tarde, montámos os instrumentos e começámos a rockar. Convidámos alguns amigos, bebemos umas cervejas e não passou muito tempo até que chegasse a polícia. O vizinho ao lado era a pacata pizzaria Élios, que chamou logo a polícia mal começámos a nossa “melodiosa” música. Mesmo tendo autorização, devido ao facto de sermos uns miúdos, lá nos fizeram pressão e impediram-nos de tocar sob a ameçada de uma multa. Ainda fomos à CMAH tentar falar com o presidente da câmara para reclamar, mas obviamente que não fomos recebidos e fomos atendidos por um subordinado qualquer que nos deu uma desculpa que não podíamos ultrapassar um certo número de decíbeis e que só podíamos fazer barulho “até ao ponto de não incomodar ninguém”. Ora muito obrigado! Então porque diabos pedimos uma autorização especial?

O nosso último concerto deu-se no Angra Rock de 2002. Fomos a última banda a actuar, depois dos Out Rage (que ganharam o Angra Rock), pelo que actuámos para uma Praça Velha completamente à pinha (creio que deveriam estar algumas centenas de pessoas). Creio que foi o nosso melhor espectáculo. Ainda nos pediram um encore e quando voltámos ao palco.

Após este concerto, o Fogy já não tinha interesse em tocar Punk e procurava outros horizontes musicais, sendo assim o fim dos Paradigma.

Não conhecíamos nenhm estúdio na altura, éramos demasiado amadores, não tinhamos $ e nem maturidade para entrar em estúdio. Para a posteridade ficaram apenas algumas cassetes gravadas com alguns ensaios e uns mp3s perdidos (convertidos de K7s). Ah sim, uma vez montámos um estúdio DIY na nossa sala de ensaios e no meio de 1001 aritmanhas, lá gravámos uns 3 temas (“Acordar!”, “Aguardente” e “MTV é capitalista” ). Nunca editámos uma demo pois achámos que a qualidade de gravação era demasiado má mas passados 10 anos acho que era bastante aceitável e que o deveríamos ter feito.

Após a banda terminar, sugiram logo de seguida os Resposta Simples, mas esta já é uma história para contar num futuro próximo…

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